Escolhas de mercado equivocadas e a falta de conhecimento sobre os
concorrentes podem afetar a perpetuação do negócio.
Fonte: Revista Fator
A competitividade cada vez mais acirrada e a percepção de que é preciso
alinhar a equipe em torno de objetivos comuns são os principais motivadores
para a implantação de um plano estratégico. A falta de meta, a ausência de
resultados e de diretrizes do que será feito e de onde se quer chegar
indicam a necessidade de redesenhar a gestão da empresa. A análise é de
Valdivo Begali*, consultor de empresas, fundador da Cia de Planejamento e
autor do livro “Trabalho de Equipe, Como Revolucionar Sua Empresa” (Juruá
Editora). Para ele, o plano estratégico é a “trama” da organização, capaz de
definir os rumos, os resultados e as recompensas corporativas.
Segundo o consultor, não implementar um plano estratégico pode afetar o
negócio de diversas formas. A mais comum é a organização não conhecer os
produtos e as práticas dos seus concorrentes, deixando de aprender com eles.
Outra situação é não compreender e não acompanhar como a necessidade ou
desejo do cliente evolui, perdendo o timing para criar novas soluções.
Entretanto, pela sua experiência, o pior caso é quando a companhia insiste
em uma escolha equivocada.
“Vivenciei situações em que, quanto mais a companhia procurava crescer, mais
subiam seus prejuízos, porque sua tecnologia não lhe permitia concorrer no
segmento de mercado que estava inserida. Em outro exemplo, a empresa estava
exageradamente alavancada e os juros que pagava aos bancos consumiam seu
lucro. No fundo, trabalhava de graça, já que ao final do mês não sobrava
nada, apesar de seus gestores e colaboradores lutarem para serem
eficientes”, explica.
Felizmente, os empresários têm valorizado a adoção de metodologias
estratégias que possam garantir a perpetuação do negócio. Com isso, o papel
do gestor de RH passou a ganhar importância. Para Begali, no desenvolvimento
do plano estratégico o capital humano é tão importante quanto qualquer outro
recurso, seja material ou tecnológico, já que ações elaboradas em consenso e
por meio do trabalho de equipe eliminam os atritos comuns entre o setor de
RH e o pessoal operacional. “A trama acaba sendo de todos e aí temos a
grande vantagem do alinhamento do time em torno de metas e projetos
compartilhados” , completa.
Na metodologia criada por Begali uma das vantagens é que, ao desenvolver o
plano estratégico com a equipe, a empresa aproveita o conhecimento de seus
funcionários, cujo tempo está à disposição gratuitamente. Isso torna o custo
do projeto mais barato em relação à metodologia da consultoria tradicional,
que aloca consultores externos para realizar levantamentos, entrevistas e
análises.
De acordo com Begali, a mobilização da equipe começa antes que o
planejamento seja iniciado. No começo, é comum a iniciativa tornar alguns
membros da equipe receosos, pois pensam que se trata de mais um disfarce
para corte de pessoal. Mas logo todos se dão conta de que o processo é
outro, que objetiva decidir os rumos da empresa. “O receio se transforma em
empolgação quando nas últimas etapas do planejamento são discutidos pela
equipe os critérios de recompensa ou premiação pelos resultados que forem
alcançados. A recompensa é o fecho da trama, é o que a torna legítima e
atraente”, afirma.
Para que o plano seja implantado é necessário que se crie um processo de
acompanhamento de sua evolução, com revisões periódicas, inicialmente
semanais e, depois, com intervalos maiores quando a equipe já tiver
conquistado confiança, os projetos e programas tiverem se tornado realidade
e os resultados evidentes. Essas revisões precisam ter como foco os
obstáculos que estejam dificultando o avanço e as decisões de como
removê-los. “A implantação requer disciplina e persistência por parte dos
gestores. Mas a recompensa vislumbrada compensa o esforço de todos”, diz.
O consultor enfatiza que no ambiente corporativo dos dias atuais nenhuma
empresa sobreviverá sem uma revisão estratégica periódica. Isso se dá porque
os atores do mercado estão a todo o momento em busca de eficiência para
seduzir a maior quantidade possível de clientes, em detrimento de seus
concorrentes.
Na prática - Para uma empresa de pequeno ou médio porte o projeto de
elaboração de um plano estratégico dura de dois a três meses. Na metodologia
elaborada por Begali o primeiro passo é a realização de uma reunião
preparatória. Depois são realizados quatro workshops com a equipe, um a cada
duas semanas. “Esse intervalo é necessário para que seja possível executar
algumas tarefas que são encomendadas e, também, para que certos insights que
ocorrem durante o projeto amadureçam, ganhem nitidez. Esses insights mexem
com as convicções da equipe, criando pontos de inflexão, tornando as
escolhas evidentes e necessárias”.
Quanto mais política é a organização, maior será o número de consensos que
precisam ser construídos fora das reuniões. No extremo oposto temos a
empresa que possui um líder forte e admirado. Nesse caso, os consensos são
construídos em torno de suas opiniões, sem grande dificuldade, durante os
encontros.
“Nossa metodologia leva a equipe a um alinhamento notável, congregando os
modelos mentais individuais em torno de metas e projetos claros e valiosos.
A regra geral para superar barreiras é a maioria expor seus argumentos de
maneira sincera à minoria, processo esse que tem funcionado muito bem em
100% dos casos. Como a trama da empresa tem que ser propriedade da equipe, o
processo decisório durante os workshops é o consenso, isto é, não se vota.
Voto é coisa da democracia, pois não há outra maneira para multidões
decidir. Mas na empresa o voto não é necessário porque o grupo de
“eleitores” é pequeno, o que torna o uso da argumentação plenamente adequado
para se alcançar os resultados necessários e com uma qualidade muito melhor
daqueles obtidos pelo voto. Sem falar que no processo decisório por consenso
você gera compromisso verdadeiro com a trama criada”, ensina.
Benefícios - As mudanças dentro da empresa começam a ocorrer já durante o
planejamento e as vantagens surgem rapidamente. O consultor afirma que um
dos subprodutos mais apreciados pelos clientes é a melhoria do entrosamento
da equipe, do clima e, ainda, da qualidade de vida resultante do menor
estresse nas relações de trabalho. A camaradagem e a tolerância aumentam,
especialmente porque crescem a confiança e o interesse, outras duas
questões-chave para que exista o trabalho em equipe em qualquer organização.
“Embora os benefícios gerados pela revisão estratégica variem de situação
para situação, temos tido casos em que o projeto se pagou em questão de
meses. Um exemplo de retorno muito rápido foi de uma empresa que conseguiu
aumentar em 12% suas vendas, por meio de uma melhor cobertura geográfica,
com aumento desprezível de custos. Tivemos outro caso em que uma organização
conseguiu liberar um andar inteiro que usava em uma avenida de primeira
linha em São Paulo”, exemplifica. Essas ocorrências são muito comuns porque,
como já comprovado por pesquisas, as organizações acumulam ineficiências com
o passar do tempo. “Por isso é vital que as empresas se submetam
periodicamente a revisões estratégicas conduzidas por profissionais
independentes” , defende.
Metodologia - A metodologia do consultor, trazida da Universidade Columbia,
contempla cinco etapas: na primeira é feita a análise e revisão de aspectos
institucionais da empresa – como missão, valores, visão e objetivos
estratégicos de longo prazo. Depois são analisadas as condições internas da
companhia – como tecnologia, competitividade de seus recursos humanos,
adequação de sua infraestrutura, solidez de seu balanço patrimonial, entre
outros aspectos.
Na terceira etapa são estudadas as tendências e as forças externas que
influenciarão a empresa no médio/longo prazo, já que até mesmo as grandes
mudanças são em sua grande maioria precedidas de sinalizações que devem ser
aproveitadas pelos empresários atentos. Posteriormente, é formulada a
estratégia propriamente dita, na qual a equipe fará as escolhas cruciais que
decidirão se o rumo trilhado pela organização será mantido ou sofrerá
ajustes. E, por fim, na última fase, é construído o mapa estratégico, com os
projetos e programas necessários para que a estratégia formulada se torne
realidade.
O autor - Valdivo Begali é consultor de empresas, fundador da Cia de
Planejamento e possui cursos de especialização em Planejamento Estratégico
nas Universidades Columbia e Michigan State, dos EUA. Estudou Engenharia
Industrial, Administração de Empresas e trabalhou, antes de ser consultor,
em grandes companhias, no Brasil e no exterior. Defende o planejamento da
empresa feito em equipe, “porque o resultado é mais equilibrado, o plano
fica pronto mais rápido, e o grupo se compromete em implantar o que for
decidido”. É membro da Association for Strategic Planning de Los Angeles.
Atua como consultor em gestão empresarial há dez anos. Sua metodologia – já
aplicada com sucesso em inúmeras empresas – consiste em planejar o futuro da
empresa com a própria equipe dela.
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